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Do trap ao rap acústico, qual é a do novo hip hop brasileiro?

Por Marília Neves e Rodrigo Ortega, G1

5 vídeos para entender o novo rap brasileiro

5 vídeos para entender o novo rap brasileiro

Matuê é trap? Se você nem entendeu a pergunta, calma. Pode parecer picuinha, mas a questão ajuda a explicar o rap no Brasil em 2019.

As batidas e os vocais arrastados do trap dominam nos EUA e foram adotados com sucesso por alguns brasileiros, como o rapper cearense Matuê. Mas muita gente torce o nariz: diz que ele dilui o som, que “Matuê nem é trap de verdade”.

O rapper resolveu o dilema com violência: atirou em si mesmo no clipe “A morte do AutoTune”, lançado em 24 de dezembro. O tiro (cenográfico) o atingiu enquanto ele vestia óculos escuros de aro branco, um símbolo do trap (assim como o AutoTune, efeito de voz citado no título).

A mensagem parece ser: o Matuê do trap morreu, e assim se livrou das cobranças.

G1 tenta descobrir a cara do rap brasileiro em 2019 a partir de três faixas que despontaram nesta virada de ano: “A morte do AutoTune”, de Matuê, “Nicole Bahls”, de MC Igu, Derek e Klyn, e “Era uma vez”, sexta faixa da série Poesia Acústica.

Além disso, o G1 investiga nesta semana outras tendências do pop para 2019:

  • É hora de romantismo mirim?
  • Pop latino irá além do reggaeton?
  • Qual é a do novo rap brasileiro?
  • Séries e filmes vão imitar internet? (quinta, 17)
  • Anos 90 são os novos anos 80? (sexta, 18)

“E pra esses bosta que fala que meu flow não é sujo / Eu digo: Eu nunca fui de ouvir opinião de surdo”, canta Matuê, ou Matheus Brasileiro, 25 anos. “Sai do meu caminho, eu tô fazendo dinheiro demais”, ele provoca.

Matuê — Foto: Divulgação

Matuê — Foto: Divulgação

“Lembro que, não faz muito tempo, eu era visto como uma promessa do trap, e hoje muita gente se incomoda por eu estar trazendo outras influências e entrando aos poucos em um mercado mais amplo. “A Morte do Autotune”, pra mim, marca o momento em que o trap deixa pra trás suas regras e clichês e assume uma identidade mais densa, com novas nuances musicais”, diz Matuê ao G1.

A provocação também está no som. “A morte do AutoTune” começa com um dedilhado de violão. Mais distante do sombrio e eletrônico trap, impossível. O violão tem mais a ver com uma vertente bem diferente e mais popular entre o público brasileiro hoje: o rap acústico, com arranjos suaves, romantismo e leveza.

“Já me disseram que eu sou craque em fazer o sangue das pessoas ferver. Na minha opinião não existe nenhum elemento musical que deve ser considerado ‘proibido’. A música é livre, e banir um instrumento ou ritmo é limitar as possibilidades de se criar algo novo”, ele defende.

Quem gosta mais da batida à americana costuma ridicularizar o tal acústico. Mas na prática, se o trap domina a parada dos EUA, no Brasil quem é mais ouvido mesmo é o violãozinho com rap.

É disso que o povo gosta?

No mesmo de “A morte do AutoTune” foi lançado o vídeo de “Era uma vez”, sexto da série “Poesia acústica” da produtora carioca Pinneapple Supply, com Mc Cabelinho, Mode$tia, Bob, Azzy, Filipe Ret, Dudu, Xamã e Orochi.

Matuê teve ótimo resultado para um rapper independente, raro para um MC associado ao trap: 7,5 milhões de views em 20 dias. Mas não se compara a “Era uma vez”: 31 milhões, uma das faixas mais ouvidas hoje no Brasil.

Os novos artistas que conseguem entrar nas paradas gerais são dessa linha mais suave e romântica, como Hungria, o rapper dos sertanejos, e o grupo carioca 1Kilo.

O cenário de 2019 pode indicar uma polarização entre o rap acústico e romântico (popular, mas careta) e o trap brasileiro (inovador mas sectário, fechado em si). Mas também há outros caminhos, e para achá-los nem é preciso se matar e nascer de novo como Matuê.

Um deles é de renovação mesmo dentro do rap acústico. É o caso da jovem Azzy, rapper de 17 anos, de Niterói, que após brilhar em duas faixas do “Poesia acústica”, segue seu plano no ascendente rap feminino.

Outra possibilidade é de um trap brasileiro de linguagem mais aberta, que não fique só nos símbolos importados, como a ode ao “lean”, a droga à base de codeína que é moda entre os astros do trap de lá.

É o caso de “Nicole Bahls”, dos rappers Igu, Derek e Klyn, membros do grupo Recayd Mob. O trap brasileiro que exalta a ex-Panicat saiu no dia 5 de janeiro e já soma 2,2 milhões de views no YouTube.

Azzy — Foto: Reprodução/InstagramAzzy — Foto: Reprodução/Instagram

Azzy — Foto: Reprodução/Instagram

Desplugada, mas ligada

Azzy é a única representante feminina no “Poesia Acústica #6 – Era Uma Vez” entre os oito integrantes sentados à mesa. É sua segunda participação (estreou na quarta edição). Em seu trecho, a garota de cabelo azul canta o amor. Mas também a independência dele.

A série da Pineapple sempre contou com ao menos uma mulher em cada vídeo. Azzy aproveitou o espaço para emplacar este discurso independente, como qual vem lançando suas faixas mais recentes da carreira solo.

Ela conta ao G1 que “Era uma vez” é seu capítulo final na série acústica. “Agora vou focar no meu EP ‘Feminice’. Vai ter participações apenas de mulheres, das relíquias às atuais. Acredito que já fiz o que tinha que ser feito (no acústico), e quero ver novas mulheres nesse projeto.”

Espaço feminino

Azzy é uma das caçulas de inúmeras rappers de destaque no Brasil. Ela também participou do projeto “Poetisas no topo”, no final de 2017, com Mariana Mello, Nabrisa, Karol de Souza, Souto, Bivolt e Drik Barbosa.

Algumas delas participaram também de um projeto anterior, o Rimas e Melodias, que reuniu em 2015 outros nomes como Alt Niss, Stefanie, Tássia Reis, Tatiana Bispo e DJ Mayra Maldjian.

“É difícil ser mulher na sociedade machista que vivemos. No rap não é diferente. Eu sou MC de batalha. Passei por situações constrangedoras, pois bati de frente com oponentes homens cujo único argumento era a baixaria”, conta Azzy.

“Mas é necessário lutar pelo teu espaço”, diz. Até os desejos mais distantes da jovem indicam uma realidade mais aberta às mulheres no rap. Ao ser perguntada sobre qual é sua parceria dos sonhos, ela não hesita: “Cardi B!”

Atlanta via Londrina

Outra mulher que marca o início de 2019 no rap brasileiro é Nicole Bahls. Mas a atriz e apresentadora de Londrina não virou rapper (ainda). Ela só dá nome à música do coletivo de trap de SP Recayd Mob.

Antes deles, só Raffa Moreira (que é amigo da Recayd, mas não membro do coletivo), tinha conseguido tanta audiência com um trap em português, em “Bro”, lançado no final de 2017.

A Recayd foi criada em 2016, mas “virou trabalho mesmo” em 2017, conta o produtor Edgard Oliveira, um dos 20 membros do coletivo. “Fomos os primeiro a fazer o trap com o som de Atlanta mesmo”, ele diz, citando a cidade do sul dos EUA onde se originou o gênero.

Se a base é americana de raiz, o recheio tem sabor local, não só na citação à ex-Panicat. MC Igu, que já cantou funk, adapta um verso famoso no gênero brasileiro ao trap: “Acho que ela quer vrau”.

“No começo eu estranhava”, ele diz sobre as primeiras tentativas de fazer trap em português. “Mas ‘o bagulho ficou na vivência’. A sonoridade veio de um jeito natural, a gente foi se acostumando”, diz Igu.

“Nicole Bahls” é só o começo de um 2019 com planos ambiciosos na Recayd. Primeiro, eles preparam um remix de “Plaqtudum” com o Tropkillaz (de “Vai Malandra”, de Anitta, e “Tombei”, de Karol Conka).

Para março, preparam uma parceria com uma “marca de alta costura”, cujo nome Edgard ainda não revela. Antes disso, estão produzindo uma faixa para tentar emplacar um “hit de Carnaval”, eles dizem. Te cuida, Jenifer.

G1

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